SUZCA (Sensoria Utópica para o Zénite Celestial Avérneo)

Encastelamento Espiritual Trapaceiro de Condição Descartável Permissível à Viabilidade Monetária

Um desenho virtual partilhado
Publicação
Ricardo de Sousa
  • self-design
  • ideologia
  • religião
  • apropriação
  • plágio
  • edição

SUZCA é um movimento espiritual derivado de cultos religiosos já existentes — largamente alicerçado nos princípios do self-design definidos por Manuel Buerger — cujo objectivo utópico passa pelo contacto com entidades extraterrestres infernais superiores. O projecto cria um novo movimento ideológico a partir de conteúdos provenientes de material pré-existente. Uma religião de marca branca com epicentro no self e puramente contraditória.

O projecto é constituído por seis publicações de formatos variáveis vendidas enquanto um único produto. Todas as publicações são de formato reduzido, sendo que cada uma representa uma subida na escada hierárquica da religião. Cada volume padece de uma estratégia de tratamento de conteúdo que o diferencia dos restantes, de forma a evocar uma lógica de progressão.

A publicação procura constituir-se como uma crítica a si própria e também à condição que serve. Pretende, principalmente, obter lucro financeiro com a exploração dos limites do bom senso, testando o ponto máximo em que as referências podem ser reformuladas, re-apropriadas, e re-empacotadas. Deste processo resulta um novo produto (SUZCA) cujo potencial de expansão alude a uma noção de continuidade infinita através de um processo cumulativo de reciclagem constante de informação.

“Sensória Utópica para o Zénite Celestial Avérneo” é uma expressão complexa que se pode traduzir em Suplantar os Cinco Sentidos Humanos de Forma a Entrar em Contacto com Entidades Superiores Extraterrestes Satânicas de Forma a Que Estas me Ajudem nos Desdéns da Minha Miserável Vida.

O projecto alicerça-se nos princípios do self-design, termo definido por Manuel Buerger no seu ensaio “Slippery Design” (2013), que encoraja uma exploração pessoal que obedece estritamente ao desejo intrínseco de quem o pratica — criando e declarando relações face a metodologias processuais ou ideológicas. Estes projectos pessoais e controversos são actos puramente reflexivos e radicalmente desprovidos de autoridade, que culminam na criação de novos campos de significação ao quebrar regras de funcionalidade e ao valorizarem o erro. Mais um estado mental do que a definição de um estilo, estes projectos defendem que o design não tem de estar necessariamente ligado à noção de funcionalidade — inspirando-se em ideais da web 2.0 e do “virtuosismo do amador” — “by designing one’s self and one’s environment in a certain way, one declares one’s faith in certain values, attitudes, programs and ideologies.” (Bueger 2013)

Seguindo estas premissas, SUZCA segue uma lógica hierárquica, à qual os seus seguidores terão de obedecer para atingir os efeitos desejados. Esta lógica desmembra-se em seis volumes e segue a seguinte ordem: “EPITOME I” e “EPITOME II” (Contextualização e Doutrina), “PSEUDEPIGRAPHA I” (Ética), “PSEUDEPIGRAPHA II” (Invocação), “PSEUDEPIGRAPHA III” (Consciencialização) e “COMPENDIUM” (Ritual). A cada volume foi aplicada uma estratégia de tratamento de conteúdo que o diferencia dos restantes, de forma a evocar uma lógica de progressão.

O volume principal, a maior das publicações em termos de formato devido ao seu estatuto doutrinário, é composto por dois volumes [“EPITOME I” e “EPITOME II”]. É no “EPITOME I” (Contextualização) que o leitor fica a conhecer a filosofia ideológica. Pode ser visto como o equivalente à bíblia deste movimento espiritual. A estratégia para tratamento de conteúdo poderá ser descrita como um “Xanadu manualizado”, isto é, uma colagem textual ao nível da passagem/versículo/parágrafo. A ideologia da religião foi “escrita” à medida que os seus versículos foram seleccionados.

Os seus conteúdos foram retirados das seguintes publicações: A Bíblia Satânica de Anton Szandor LaVey, A Bíblia Sagrada de Vários Autores, O Sagrado Alcorão de Muhammad, A Mensagem Dada Pelos Extraterrestres de Claude Vorilhon, The Lesser Key of Solomon por autor anónimo, e O Livro da Lei de Aleister Crowley. Para este volume foram utilizadas traduções portuguesas, evidenciadas pelo sufixo TPT. Cada versículo ou passagem contém um sistema de catalogação de forma a evidenciar a sua origem, baseado no formato de catalogação da Bíblia Sagrada e d’O Sagrado Alcorão. Este sistema foi adaptado a todas as passagens textuais, contendo informação relativa a capítulos, número de versículos ou passagem, número de página, entre outros. A página final contém um disclaimer, onde a natureza do projecto é explicitada, numa lógica de letras pequenas num contrato que ninguém lê mas são absolutamente fulcrais.

“EPITOME II” (Doutrina, é um volume contido no interior do “EPITOME I”. Este volume pretende, através das expressões “sim” e “não”, demonstrar visualmente a atitude que o seguidor deverá adoptar, utilizando um método de colisão entre imagens (Kuleshov). O seu conteúdo foi retirado da pesquisa de termos abrangentes, como o bem/o mal, o amor/o ódio, trabalho/preguiça. De forma a evocar um pendor de charlatanismo, todas as watermarks e/ou links de origem do conteúdo visual não foram removidos.

Entra-se agora no espectro das “PSEUDEPIGRAPHAS I”, “II”, e “III”. De pendor complementar e prático, o seu estatuto, apesar de fulcral na hierarquia lógica progressiva, é tido como menor no espectro global. Como tal, os seus formatos são sensivelmente mais pequenos que o volume principal. Estes volumes utilizam processos largamente automatizados de tratamento de conteúdo com uma escolha mínima e imparcial por parte do autor. “PSEUDEPIGRAPHA I” (Ética) consiste num conjunto de seis cartas, e utiliza um sistema apelidado de Google Poetics, utilizando o autofill automático da Google como forma de criação textual; em tom de mandamento, descreve o que o seguidor deverá cumprir. “PSEUDEPIGRAPHA II” (Invocação) é um pequeno livro cujo conteúdo se formou através de uma lógica de permutação de texto. Uma pequena porção de uma invocação foi retirada do The Lesser Key of Solomon, o grimório de invocação de demónios por excelência, e posteriormente corrida por um script que esgotou todas as possibilidades de fazer frases com sentido a partir desse fragmento. “PSEUDEPIGRAPHA III” (Consciencialização) consiste num livro desdobrável puramente imagético, cujo conteúdo foi retirado do Google Images através da pesquisa de termos comuns (como “iconografia religiosa”), de forma a automatizar ou padronizar ao máximo o processo. Este volume pretende centrar o seguidor num conjunto de signos, ícones e imagética específica, de forma a ambientar o seu estado mental ao processo de doutrinação.

Por último, todo o processo culmina no “COMPENDIUM I” (Ritual), que fornece uma lógica circular ao projecto, e resume toda a narrativa num processo que conduz (idealmente) a um resultado — o efeito placebo. O seu conteúdo debruça-se no pedido de nova consulta e reutilização das publicações. A sua redacção é original, apesar de alicerçada no conteúdo explorado, e novamente mesclando referências de diversos movimentos religiosos.

O resultado de SUZCA é uma religião rapidamente construída na linha de montagem fabril, com conteúdo plagiado, descontextualizado e editado. SUZCA demonstra algumas inconsistências baseadas no self-design — como a negação da funcionalidade enquanto forma de criação em design ou a concepção de ligações através de opostos. O seu formato é utilizável, mas disfuncional. Nenhuma das publicações contém identificação, nem o seguidor é informado em relação à sua lógica hierárquica.

O preço é restritivo — 444€ — e ninguém pode ter acesso ao projecto a não ser que pague o seu valor (444 em numerologia representa a honestidade e a sabedoria interior). O seguidor é encorajado a queimar a sua cópia após a realização do ritual final e a adquirir uma nova.

A linguagem visual cumpre apenas a função que serve, afastando-se de qualquer estilização — “Design por defeito é um estado mental, mais do que necessariamente a definição de um estilo”, citando Manuel Buerger. O logotipo mescla diversos ícones religiosos e esotéricos numa perspectiva combinatória; a cruz invertida (de São Pedro) — comummente associada ao Satanismo —, a forma fálica — aludindo aos escritos e rituais esotéricos —, e a âncora — símbolo cristão predecessor à própria cruz.

SUZCA é elogio ao fragmento, um fake que se quer fazer passar por legítimo, mas que sabe onde pertence. Uma desculpa esfarrapada para ganhar dinheiro, seguidores e instaurar ideologias que desafiam o bom-senso e as estruturas correntes.