Reading as Writing

Visualização do processo de leitura

Um desenho virtual partilhado
Instalação interactiva
Pedro Mota
  • leitura
  • texto
  • página
  • composição
  • não-linearidade
  • temporalidade

“A unidade de um texto não está na sua origem, mas sim no seu destino”. A citação de Roland Barthes deixa clara a relevância do leitor na concretização da obra literária e o seu papel na criação de novas interpretações e versões do texto lido. Reading as Writing pretende evidenciar a leitura como acto criativo ao propor uma ferramenta de registo e comunicação deste processo.

Partindo da leitura em ecrã de textos de Jay David Bolter, Michel de Certeau e Roland Barthes (enquanto fundamentação conceptual deste projecto) e tendo por base a forma como o cursor percorre o texto, a leitura é simulada e os movimentos e pausas da interface são analisados para, segundo regras pré-estabelecidas, se definirem novas configurações para o texto lido.

A estrutura espacial do texto criado transmite a sequência temporal do processo de leitura do texto original. Deste modo, é dada uma expressão visual ao acto invisível da leitura, que no final se formaliza num objecto impresso.

Reading as Writing tem como objecto de estudo a leitura como ferramenta de edição e formatação de conteúdo. Partiu de uma investigação sobre o papel do utilizador na recolha e organização de novos conteúdos, em paralelo com a análise de um conjunto de referentes gráficos, como a poesia concreta, onde a composição de texto segue uma organização espacial coerente com o conteúdo comunicado.

A instalação teve como referência inicial The readers project (2009-14), desenvolvido por John Cayley em parceria com Daniel C. Howe. Este projecto aborda a navegação pelo texto a partir dos comportamentos do leitor, considerando a leitura enquanto construção. Através de autómatos digitais com comportamentos e estratégias pré-definidas, são criadas visualizações sobre o processo de leitura de texto.

Tal como em The readers project, Reading as Writing tem por objectivo o registo e comunicação do processo de leitura mas, neste caso, influenciado pela interacção do leitor.

O utilizador é confrontado com uma página de texto em ecrã; através do cursor, simula o percurso da sua leitura. O resultado é revelado em novas composições de texto. Numa nova página (outro ecrã ao lado do texto original) os excertos lidos são organizados e sequencialmente reescritos segundo o tempo e modo de leitura. As palavras sobrepostas pelo cursor são introduzidas continuamente na composição de acordo com a velocidade e direcção do mesmo. O tempo de permanência, num local em branco ou numa palavra, indica o nível de atenção do leitor e é recriado formalmente através da repetição ou ausência de palavras.

A construção de novas páginas é acompanhada por dois elementos de visualização de carácter distinto. Sobre o ecrã, palavras lidas (que vão desvanecendo) são projectadas numa folha de papel, remetendo para o momento de recolha e memorização efémera do texto. Sob o ecrã, serão dispostas impressões de cada nova página publicada, dando ênfase à possibilidade de transformação do processo de leitura num objecto concreto e de possível consulta.

Foram selecionados textos que abordam os processos de leitura (“The reading path” de Jay David Bolter, “A misunderstood activity: reading” de Michel de Certeau, “The Death of the Author” de Roland Barthes), e que orientam o leitor para algumas das problemáticas exploradas no projecto.

Reading as Writing promove ainda uma reflexão sobre a utilização de interfaces digitais e o seu contributo na exploração de novos métodos criativos que surgem da colaboração entre homem e máquina.